Considerações gerais sobre o cultivo da macieira

Foto: João Paulo T. Dias

Foto: João Paulo T. Dias

Diversos estudos revelam os efeitos favoráveis à saúde advinda do consumo regular de frutas, sobretudo as ricas em substâncias antioxidantes, como por exemplo, a maçã. A macieira (Malus domestica Borkh.) pertence à família Rosaceae e ao gênero Malus. Seu centro de origem está em uma cadeia montanhosa da Ásia e leste da China, conhecida como Cáucaso, sendo cultivada inicialmente na época do império grego e, logo em seguida, pelo império romano, estendendo-se até os dias atuais.

Segundo dados da Food and Agriculture Organization of the United Nation (FAO, 2012) os maiores produtores mundiais de maçã são a China, Estados Unidos e Turquia, com o Brasil ocupando a nona posição mundial. O Brasil, segundo o levantamento sistemático da produção agrícola feito pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2012), produziu cerca de 1.366.223 kg em 38.029 ha, alcançando uma produtividade de 36.443 kg ha-1 no ano de 2011. O maior produtor nacional é Santa Catarina, seguido por Rio Grande do Sul, São Paulo e Minas Gerais.

A macieira é uma planta perene e apresenta folhas caducas que, diminui o metabolismo no inverno, chamado de dormência. Para iniciar a nova formação de ramos e brotos na primavera e sair da dormência, as plantas necessitam de certa quantidade média de horas de frio abaixo de 7,2ºC, sendo variável de acordo com a cultivar. Atualmente, o melhoramento genético possibilitou a utilização de várias cultivares com necessidades de horas de frio variando de 200 a 1.000 horas. Em regiões onde o frio é insuficiente para promover brotação uniforme, torna-se necessário o uso de substâncias específicas para tal fim. A produção de mudas é realizada pelo método de enxertia, sendo os porta-enxertos propagados vegetativamente por micropropagação ou mergulhia. As características genéticas do porta-enxerto determina o porte da planta, sendo mais utilizados no Brasil o M-9 (anão), M-7 (semi-vigoroso) e Marubakaido (vigoroso). Com o porta-enxerto japonês Marubakaido é utilizado o interenxerto de M-9 (filtro) com o objetivo de diminuir o vigor da macieira. A densidade de plantio depende do porta-enxerto e do sistema de condução, ficando na faixa de 1.000 a 3.500 plantas ha-1, nos espaçamentos de 3,0 a 5,0m x 0,8 a 2,5m. Além disso, a maioria dos cultivos de maçã estão conduzidos em sistema de líder central, com necessidade de sistema de sustentação quando utilizado porta-enxerto anão (PETRI; LEITE, 2008). Marcon Filho et al. (2009) mostraram que o uso do interenxerto de EM-9 de 30 cm no porta-enxerto Marubakaido também pode ser indicado para o controle do vigor de macieiras cv. Imperial Gala, garantindo a maior eficiência produtiva e frutos de maior tamanho.

O uso exclusivo de um único porta-enxerto pode trazer preocupações futuras, sobretudo pela possibilidade de surgirem situações adversas como susceptibilidade a pragas, doenças ou mesmo condições específicas desfavoráveis de solo, clima e crescimento da planta. Corrêa et al. (2012) também verificaram que há diferenças quanto a composição mineral e qualidade de polpa de maçãs ‘Fuji’ sob diferentes porta-enxertos, sendo as plantas enxertadas com ‘MM-106’ proporcionaram frutos menos predispostos a degenerescência de polpa que as plantas enxertadas no porta-enxerto Marubakaido e Marubakaido com filtro M-9, que por sua vez, estava intimamente relacionada à composição mineral do fruto.

Outra característica marcante da enxertia de frutíferas é com relação à compatibilidade da cultivar utilizada como porta-enxerto e da cultivar utilizada como enxerto (copa). O processo de soldadura do enxerto é de fundamental importância para o desenvolvimento de uma planta saudável e produtiva, porém, a incompatibilidade pode ocorrer. Abreu et al. (2003) realizaram estudos histológicos em microenxertos oriundos de micropropagação da cultivar copa Gala e dos porta-enxertos de macieira M-9 e Marubakaido, com cerca de 9 cm por fenda simples e caracterizaram o processo de soldadura pelo desenvolvimento de tecido meristemático, originando células parenquimáticas na interface do microenxerto, com a proliferação do tecido cambial da cultivar copa. Isso possibilitou a ligação do sistema vascular da copa com o do porta-enxerto, resultando na sobrevivência do microenxerto.

A macieira exige polinização cruzada, necessitando do plantio de duas ou mais cultivares polinizadoras, podendo ser utilizadas plantas de outras cultivares do gênero Malus, em plantios novos. A colheita ocorre tradicionalmente de dezembro a abril, com concentração entre fevereiro a abril, em função da cultivar e do clima de cada região de cultivo. A produtividade esperada pode ficar em torno de 40 a 60 toneladas ha-1, dependendo das tecnologias de cultivo empregadas (PETRI; LEITE, 2008).

As cultivares copas Gala e Fuji e seus clones representam a maioria da produção nacional, porém novas cultivares com menor exigência em frio estão sendo disponibilizadas para cultivo com sucesso e, entre elas, destaca-se a cultivar Eva (IAPAR-75) obtida pelo Instituto Agronômico do Paraná, através do cruzamento entre as cultivares Gala e Anna. As plantas possuem vigor moderado a baixo, com ramos semi-eretos de crescimento compacto, com florescimento e brotações sob desfolha. Floresce e frutifica abundantemente em esporões, brindilhas e gemas laterais de ramos do ano, além de apresentar baixa intensidade de dormência exigindo 330-350 unidades de frio. Os frutos são doces e levemente acidulados, cônicos e cobertos com 30 a 70% de vermelho vivo semelhante à Gala, também possui coloração de fundo creme–amarelada, firmes e resistentes (IAPAR, 2012). Entretanto, a macieira é uma frutífera de clima temperado introduzida no Brasil, um país de condições continentais e com grande diversidade de climas, sobretudo, o clima tropical, onde a latitude abrange de 5° Norte a 33° Sul, o que pode favorecer o crescimento vegetativo da planta em detrimento da produção e a qualidade comercial do fruto.

Vários trabalhos têm sido relatados na literatura científica sobre a utilização de inibidores do crescimento vegetativo, como por exemplo, o prohexadione cálcio (produto comercial Viviful®) e o etil-trinexapac (produto comercial Moddus®). Silveira et al. (2012) verificaram que o uso do prohexadione cálcio na concentração de 319 mg L-1 de ingrediente ativo, aplicado na queda de pétalas e brotações do ano com 5-10 cm de comprimento, sendo repetidas após 20 dias, reduziu o crescimento vegetativo de macieiras ‘Catarina e ‘Fuji’, além de apresentarem menor incidência do distúrbio fisiológico conhecido como “bitter pit” comparativamente ao tratamento sem a aplicação do produto. Spinelli et al. (2010) verificaram que o prohexadione cálcio e o etil-trinexapac influenciaram positivamente na produção de maçãs nas concentrações de 250 e 500 mg L-1, respectivamente.

Numerosas pesquisas têm demonstrado a possibilidade da indução de resistência fisiológica devido ao uso do etil-trinexapac no controle de doenças, tais como a sarna-da-macieira (SPINELLI et al., 2010), além do fogo bacteriano das pomáceas em macieiras e pereiras (SPINELLI et al., 2007). Contudo, estudos devem ser feitos no que diz respeito a concentrações utilizadas, épocas de aplicação, efeitos diretos e indiretos no crescimento e na produção da macieira, além de pós-colheita dos frutos.

REFERÊNCIAS

ABREU, M. F. et al. Estudos histológicos preliminares da microenxertia de plantas micropropagadas de macieira. Revista Brasileira de Fruticultura, Jaboticabal – SP, v. 25, n. 1, p. 195-196, 2009.

CORRÊA, E. R. et al. Composição mineral, qualidade e degenerescência de polpa de maçãs ‘Fuji’ em diferentes porta-enxertos durante armazenamento em atmosfera controlada. Revista Brasileira de Fruticultura, Jaboticabal – SP, v. 34, n. 1, p. 033-040, mar. 2012.

FOOD AND AGRICULTURE ORGANIZATION OF THE UNITED NATION. FAOSTAT. Disponível em: < http://faostat.fao.org/site/339/default.aspx&gt;. Acesso em: 16 mai. 2012.

INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA – IBGE. Levantamento Sistemático da Produção Agrícola.  Rio de Janeiro,  v.25, n.03, p.1-88. mar.2012.

INSTITUTO AGRONOMICO DO PARANÁ. Macieira: IAPAR-75 Eva. Disponível em: < http://www.iapar.br/arquivos/File/zip_pdf/eva.pdf&gt;. Acesso em: 17 mai. 2012.

MARCON FILHO, J. L. et al. Aspectos produtivos e vegetativos de macieiras cv. Imperial Gala interenxertadas em EM-9. Revista Brasileira de Fruticultura, Jaboticabal – SP, v. 31, n. 3, p. 784-791, set. 2009.

PETRI, J. L.; LEITE, G. B. Macieira. Revista Brasileira de Fruticultura, Jaboticabal-SP, v. 30, n. 4, p. 857-1166, 2008.

SILVEIRA, J. P. G. et al. A Inibição na síntese de giberelina reduz o crescimento vegetativo em macieiras e proporciona controle de “bitter pit” nos frutos. Revista Brasileira de Fruticultura, Jaboticabal – SP, v. 34, n. 2, p. 328-335, 2012.

SPINELLI, F. et al. Potential and limits of acylcyclohexanediones for the control

of blossom blight in apple and pear caused by Erwinia amylovora. Plant Pathology, v. 56, p. 702–710, 2007.

SPINELLI, F. et al. Reduction of scab incidence (Venturia inaequalis) in apple with prohexadione-Ca and trinexapac-ethyl, two growth regulating acylcyclohexanediones. Crop Protection, v. 29, p. 691-698, 2010.

Autor:

João Paulo Tadeu Dias

Doutorando em Agronomia (Horticultura), Unesp, Botucatu-SP. Correio eletrônico: diasagro@fca.unesp.br

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2 Comentários (+adicionar seu?)

  1. adelaine
    jun 23, 2013 @ 20:53:19

    Olá Alessandra! Meu nome é Adelaine e encontrei seu blog a procura de material informativo para meu irmão que está iniciando a atividade de horticultura,entre elas a cultura de jiló.Já solucionamos algumas dúvidas quando respondeu a outras pessoas,mas em uma delas continuamos com dúvida.Quando vc responde ao Carlos de Passos que os furinhos das folhas podem ser causados por grilo vc recomenda a pulverização com urina de vaca na quantidade de 5ml por 20 litros de água.A dosagem é esta mesma?
    Outra pergunta?caso seja o grilo ele causa alguma deformação na flor e consequentemente no fruto?
    Desde já agradecemos.Somos da região central de Minas Gerais.

    Responder

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