Propagação de Dioscoreaceae

 

Foto: João Paulo T. Dias

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O cultivo de Dioscoreaceas é basicamente para fins alimentício e, eventualmente, medicinal. Surge como alternativa de diversificação para pequenas propriedades familiares, populações tradicionais como os caboclos, indígenas, ribeirinhos, caiçaras, dentre outros, em razão dos baixos custos de implantação e de manutenção do cultivo quando comparados aos de outras espécies.

Os tubérculos de inhame (Dioscorea sp.) possuem cerca de 70% de umidade, carboidratos, minerais e vitaminas, prestando-se para processamento com diferentes cortes e temperaturas (Fioreze; Morini, 2000).

A origem e a diversidade dos nomes de muitas espécies da família Dioscoreaceae referenciados por populações de agricultores tradicionais tem causado muitas divergências (Zhizun; Gilbert, 2000; Pedralli et al., 2002). Estes últimos autores revelaram que a família Dioscoreaceae apresenta nove gêneros e cerca de 850 espécies de distribuição tropical, subtropical e temperada. No Brasil, e em especial nas regiões Norte/Nordeste, são cultivadas as seguintes espécies: Dioscorea alata, D. bulbifera, D. cayenensis, D. dodecaneura, D. dumetorum e D. rotundata, excetuando D. trifida (domesticada pelos indígenas nas áreas limítrofes entre o Brasil e as Guianas).

Carvalho e Teixeira (2009) verificaram que existe grande variabilidade genética de Dioscorea spp. nas áreas de cultivo no recôncavo baiano. Já Bressan (2005) revelou que os agricultores tradicionais da região Sul do Estado de São Paulo (Vale do Ribeira) têm se mostrado mantenedores de um grande repositório de diversidade genética e de conhecimento a respeito das potencialidades de manejo deste gênero. A cultura do inhame (Dioscorea spp.) foi mantida em sistema de coivara, sendo encontradas quatro espécies de inhame: D. trifida, D. bulbifera, D. alata e D. cayenensis.

Rocha Júnior et al. (2010) trabalhando com produtores de inhame (Dioscorea spp.) do município de Chã Preta (AL) revelaram que nenhum dos entrevistados aprendeu a plantar inhame a partir de treinamentos técnicos, enquanto 92% aprenderam com os pais, tios, avós e parentes e 8% com amigos ou conhecidos.

Ferreira et al. (2010) caracterizaram o sistema de produção de Dioscoreaceas cultivadas por agricultores da Baixada Cuiabana (MT) como sendo do tipo familiar, utilizando as túberas-semente partidas por 55% dos agricultores, ou inteiras por 45% dos agricultores. O preparo do solo é rudimentar, com nenhuma ou pouca mecanização agrícola (14%), calagem (4%) e adubação (8%), com plantio de agosto a novembro. Os tratos culturais são feitos de uma única vez no estabelecimento da cultura, com a capina e amontoa. O comércio dos tubérculos pode ser feito na própria comunidade e no comércio local, sendo a venda direta aos consumidores e/ou atravessadores.

A propagação das diferentes espécies de Dioscorea pode ser realizada vegetativamente através das túberas-semente inteiras (Figuras 1 e 2) ou por partidas (Figura 3). Okoli, 1982 citado por Acha et al. (2004) já reportavam sobre o uso de tais propágulos, em torno de 200 g ou mais, na propagação de Dioscorea spp.

No entanto, a brotação é desuniforme e pode levar a perdas consideráveis aos agricultores, devido à morte dos tubérculos, ocasionada por ataques de insetos e de patógenos no solo e pelas intempéries que danificam as gemas de brotação (SANTOS, 1996 citado por Oliveira, 2010). Eventualmente, pode se utilizar a técnica de cultivo in vitro com sucesso, conforme relataram Poornima e Ravishankar (2007). Embora seja um método mais oneroso, com consequente aumento do preço do propágulo para o produtor, apresenta como vantagens a melhor qualidade das mudas, como uniformidade, vigor e sanidade e, principalmente, isenção de viroses e nematóides.

Foto: João Paulo T. Dias

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Figura 1. Propagação vegetativa de D. bulbifera através de túbera-semente inteira.

Foto: João Paulo T. Dias

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Figura 2. Aspecto geral do sistema radicular proveniente de túbera-semente inteira em D. bulbifera.

Foto: João Paulo T. Dias

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Figura 3. Propagação vegetativa de D. bulbifera através de túbera-semente partida.
Além disso, Acha et al. (2004) reportaram sobre o uso do método de alporquia de ramos associado ao uso do regulador vegetal ácido indolilbutírico (IBA) no aumento do número de raízes de Dioscorea rotundata.Figura 3. Propagação vegetativa de D. bulbifera através de túbera-semente partida.

A propagação vegetativa das espécies de Dioscorea realizada por túberas-semente podem ter suas produções médias de massa fresca da parte aérea e rizomas, significativamente dependentes de diferentes tipos de clones e tamanhos das mudas.

Zárate et al. (2003) realizaram a colheita de Dioscorea spp. aos 248 dias após o plantio. As maiores produções de massa fresca, tanto na parte aérea como de rizomas, foram do clone ‘Caramujo’ com 17,20 t ha-1 e 51,40 t ha-1, respectivamente. Quanto ao tamanho de mudas, as maiores produções de massas frescas de partes aéreas (14,75 t ha-1) e de rizomas (52,01 t ha-1) foram das plantas provenientes de mudas maiores.

Entretanto, Oliveira (2010) observou que o comprimento máximo de túberas de Dioscorea cayennensis L. foi de 25,3 cm, alcançada com mudas de 141 g de túberas-semente. Os diâmetros máximos de túberas foram de 11,8 e 11,5 cm, respectivamente, com o uso de mudas originadas de porções de 250 g de túberas-semente. Os pesos médios máximos de túberas foram de 2,16 kg, 2,2 kg e 1,5 kg, obtidos com mudas produzidas com porções de 178 e 250 g. A produtividade total de túberas alcançou valores de 21,4 e 21,0 t ha-1, quando se plantaram mudas de 157 g e 250 g de túberas-semente.

Santos (1996) citado por Oliveira et al. (2006) revelou que a colheita do inhame (Dioscorea cayennensis Lam.) pode ser realizada aos sete meses, caracterizada pela “capação” (inhame imaturo), ou aos nove meses, quando a planta completa seu ciclo de crescimento e desenvolvimento. A primeira colheita é realizada para obter rizóforos (túberas) para comercialização no período de entressafra e, ao mesmo tempo, permitir a produção futura de rizóforos-sementes (túberas-semente), uma vez que as plantas permanecem no campo por mais dois meses, até completar o ciclo. A segunda colheita, caso não tenha sido efetuada a prática da “capação”, é realizada com o objetivo de obter rizóforos maduros.

Em virtude de poucas informações sobre o assunto há a necessidade de mais estudos sobre o método de propagação, além do tipo e tamanho de propágulos, bem como seu efeito na produção de Dioscoreaceas.

Agradecimentos

 

À Capes e ao Departamento de Horticultura, pertencente à Faculdade de Ciências Agronômicas de Botucatu –UNESP.

Referências

 

 ACHA, I. A.; SHIWACHI, H.; ASIEDU, R.; AKORODA, M. O. Effect of auxins on root development in yam (Dioscorea rotundata) vine. Trop. Sci., v. 44, p. 80–8, 2004.

BANZATTO, D. A.; KRONKA, S. do N. Experimentação agrícola. 3ª ed. Jaboticabal: Funep, 1995, 247p.

FERREIRA, A. B.; MING, L. C.; CHECHETTO, F.; PINTO, R. A.

Dioscoráceas cultivadas por agricultores da Baixada Cuiabana em Mato Grosso –Brasil. Revista Raízes e Amidos Tropicais, volume 6  p.201-208, 2010.

 BRESSAN, E. A. Diversidade isoenzimática e morfológica de inhame (Dioscorea spp.) coletados em roças de agricultura tradicional do Vale do Ribeira – SP. 2005. 172 f. Dissertação (Mestre em Ecologia de Agroecossistemas) – Universidade de São Paulo: Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, Piracicaba, 2005.

CARVALHO, P. C. L.; TEIXEIRA, C. A. Diversidade Genética em Dioscorea spp. no Recôncavo da Bahia Genetic diversity in Dioscorea spp. Reconcavo Bahia. In: Resumos do VI CBA e II CLAA. Rev. Bras. De Agroecologia, 2009, v. 4, n. 2, 2009. p.4104-4106.

FIOREZE, R.; MORINI, B. Yam (Discorea sp.) drying with different cuts and temperatures: experimental and simulated results. Ciênc. Tecnol. Aliment., v. 20, n. 2, p. 262-266, 2000.

OLIVEIRA, A. P.; BARBOSA, L. J. N.; SILVA, S. M.; PEREIRA, W. E.; SILVA, J. E. L. Qualidade do inhame afetada pela adubação nitrogenada e pela época de colheita. Horticultura Brasileira, 24: 22-25, 2006.

OLIVEIRA, F. J. M. Tecnologia de produção de inhame (Dioscorea cayennensis L.) pelo sistema de formação de mudas e  transplantio. Areia-PB, 2010.  57 f.

Dissertação. (Programa de Pós-Graduação em Agronomia). Área de concentração:  Agricultura Tropical. Universidade Federal da Paraíba, 2010.

PEDRALLI, G.; CARMO, C.A.S.; CEREDA, M.; PUIATTI, M. Uso de nomes populares para as espécies de Araceae e Dioscoreaceae no Brasil. Horticultura

Brasileira, Brasília, v. 20, n. 4, p. 530-532, dezembro 2002.

POORNIMA, G. N.; RAVISHANKAR, R. V. In vitro propagation of wild yams, Dioscorea oppositifolia (Linn) and Dioscorea pentaphylla (Linn). African Journal of Biotechnology, v. 6, n. 20, p. 2348-2352, 2007.

ROCHA JUNIOR, C. J. G.; COSTA, J. H. Q.; MOUTINHO, L. M. G.; CARNEIRO, A. J. O. L. L.; CAMARGO, H. F. M. B. Percepção dos produtores de Dioscorea spp. do município de Chã Preta – AL – Brasil, em relação às orientações técnicas no campo. In: CONGRESSO DA SOCIEDADE BRASILEIRA DE ECONOMIA, ADMINISTRAÇÃO E SOCIOLOGIA RURAL, 48. 2010. Campo Grande, MS. Anais…  Campo Grande: SOBER: 1-14.

ZÁRATE, N. A. H.; VIEIRA, M. C.; FACCO, R. C. Produção de clones de inhame em função do tamanho das mudas. Acta Scientiarum: Agronomy, Maringá, v. 25, n. 1, p. 183-186, 2003.

ZÁRATE, N. A. H.; VIEIRA, M. C.; MINUZZI, A. Brotação de seis tipos de mudas dos clones de inhame roxo e mimoso. Ciênc. agrotec., Lavras, v.26, n.4, p.699-704, jul./ago., 2002.

Autores

João Paulo Tadeu Dias (diasagro@fca.unesp.br)

Keiko Takahashi (keiko.pontealta@gmail.com)

Elizabeth Orika Ono (eoono@ibb.unesp.br)

Lin Chau Ming (linming@fca.unesp.br)

 

 Endereço

Universidade Estadual Paulista “Júlio Mesquita Filho”

Fazenda Lageado

Portaria I: Rua José Barbosa de Barros, nº ,1780

Portaria II: Rodovia Alcides Soares, Km 3 Botucatu – SP

Caixa Postal 237 – CEP 18610-307

Departamento de Horticultura. Tel: (14) 3811- 7203

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